PRESIDENTE DE ANGOLA: “NÃO HÁ RESSENTIMENTO CONTRA O COLONIALISMO PORTUGUÊS”

João Lourenço garante que, em Angola, “não há ressentimento” contra o colonialismo português, regime que até os próprios “portugueses combateram”, e que hoje existe uma “irmandade” entre os dois países.
Negócios com Lusa/ 23 de Março de 2019 às 17:09


João Lourenço, Presidente de Angola

O presidente de Angola afiançou, este sábado, 23 de março, em declarações à Lusa, que não existe em Angola ressentimento contra o colonialismo português.
As declarações de João Lourenço foram feitas momentos após ter condecorado cerca de meia centena de militares que participaram na batalha do Cuíto Cuanavale, na província do Cuando Cubango, a mais célebre e mortífera da história da guerra civil angolana, que ocorreu após a independência (1975/2002).

“Com certeza que não [há ressentimento]. O colonialismo português era um sistema que todos nós combatemos. Os portugueses também o combateram. Não pode haver ressentimento. O que existe é a irmandade e fraternidade entre dois povos, que lutaram contra um inimigo comum”, afirmou o chefe de Estado angolano.

Sobre a cerimónia hoje realizada no Cuíto Cuanavale, integrada no âmbito das celebrações do “23 de março”, o Dia da Libertação da África Austral, data em que, em 1988, terminou a batalha homónima, sendo “feriado regional” na África Austral, João Lourenço reiterou tratar-se de um sinal de reconhecimento a todos os que nela combateram.

“Este dia representa um sinal de reconhecimento a todos aqueles que, com suor e sangue, tornaram possível não só a libertação de Angola, mas a independência da Namíbia a libertação de Nelson Mandela e a instalação de um regime democrático na África do Sul”, afirmou.

Entre a cerca de meia centena de antigos combatentes homenageados, nenhum deles esteve ligado às Forças Armadas da Libertação de Angola (FALA) – exército do então movimento guerrilheiro União nacional para a Independência Total de Angola -, mas sim às Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

“É este punhado de combatentes que acabamos de condecorar, em representação de todos, uma vez que não possível fazê-lo com todos, os que tornaram possível aquele que era um sonho, vencer o exército do regime do ‘apartheid’. Eles tornaram isso possível”, frisou.

Além de João Lourenço outros chefes de Estado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) marcaram presença, com destaque para os presidentes da Namíbia, Hage Geingob, da República do Congo, Dennis Sassou Nguesso, República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, e do Zimbabué, Emerson Mnangagwa, com os restantes 11 Estados-membros a fazerem-se representar por ministros.

No “ato político”, além de uma intervenção, João Lourenço condecorou Cuba e a Rússia – “em representação da antiga União Soviética” -, através dos respetivos embaixadores em Angola, pelo papel “inquestionável” que ambos desempenharam em todo o processo, não apenas na batalha do Cuíto Cuanavale, mas de uma forma geral.

“Em relação à Rússia, na então União Soviética, esteve em todo o processo de luta contra o colonialismo português, primeiro, e, depois, em toda a resistência do povo angolano ao regime do apartheid. Tal como Cuba, com os seus homens que aqui verteram o seu sangue, no Cuíto Cuanavale e noutras batalhas, que foram inúmeras”, disse João Lourenço à Lusa.

A efeméride tem na base o fim daquela que é considerada a mais dura batalha da guerra civil angolana, ocorrida naquela região, e que, segundo a versão das autoridades de Luanda, levou à paz em Angola, abriu portas ao fim do regime de segregação racial (‘apartheid’) que então vigorava na África do Sul e à independência da Namíbia.

A batalha do Cuíto Cuanavale decorreu entre 15 de novembro de 1987 e 23 de março de 1988 e opôs as FAPLA, apoiadas por Cuba, e as FALA, com apoio da África do Sul.

Ainda segundo a argumentação das autoridades de Luanda, o fim da batalha marcou um ponto de viragem decisivo na guerra (que só terminaria em 2002), incentivando paralelamente um acordo entre sul-africanos e cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à aplicação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de ‘apartheid’.

Por seu lado, a UNITA, que esteve ausente da cerimónia, considera a celebração da efeméride uma “deturpação da história” por parte do executivo angolano, “apoiada por governos de proximidade ideológica”, e que constitui “um elemento de referência propagandístico” que “não faz sentido celebrar” num contexto de reconciliação nacional.

“Não faz sentido em Angola comemorarem-se vitórias e derrotas num momento de reconciliação nacional. Acima de tudo é um elemento de referência propagandístico, indiscutivelmente. Não aconteceu nada daquilo que formal e oficialmente a propaganda traz”, referiu sexta-feira à Lusa o líder parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior.

“É uma deturpação clara histórica, de continuidade ideológica que, na região, acabou também por ser abraçado por governos de proximidade ideológica. Mas os historiadores vão acabar por escrever a história real. Não estou muito preocupado. Preocupa-me sim é, numa altura destas, em que temos desafios de consolidação nacional, comemorar datas de divisão nacional. Não faz sentido nenhum”, acrescentou.

Antes de ser proposta e aceite pelos chefes de Estado e de Governo da SADC, que a aprovaram como feriado regional a 18 de agosto de 2018, a data foi nove dias antes institucionalizada como feriado nacional angolano, uma medida aprovada apenas pelos deputados do MPLA.

A SADC foi criada a 17 de outubro de 1992 e integra Angola, Moçambique, África do Sul, Botsuana, República Democrática do Congo, Essuatini (antiga Suazilândia), Lesoto, Madagáscar, Malaui, Maurícia, Namíbia, Seychelles, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabué.

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